Entrevista – by Whitewall

Segue o trecho de uma entrevista feita pela revista Whitewall com o Daft Punk, gentilmente traduzida pelo Guiga. Para ver o resto da entrevista e fotos incríveis, clique aqui.

WHITEWALL: Você considera Daft Punk um duo de performance-art tanto quanto uma banda?

Thomas Bangalter: O modo como nós sempre o faziamos era como projeto criativo que realmente foi além da música propriamente dita – onde a música era como um gatilho. Por termos usufruido de uma relação interativa com a platéia, nós usamos a música para desenvolver esses tipos de satélites, esses vetores de expressão artística, adicionando toda e qualquer peça de trabalho que nós fazemos como um processo global. Existem muitas influências nesse aspecto. Quando eramos adolescentes, 12 ou 13 foi Andy Warhol e Pop art, e onde ele situava entre arte contemporânea e cultura popular, produção mecânica, mídia em massa. É realmente entre arte como um ofício e também como uma indústria.

WW: Houve um momento em que vocês decidiram que suas identidades teriam que sair fora da jogada?

TB: Agora é até comum ter vídeo clipes sem os integrantes das bandas, mas há 10 anos atrás isso era raro. E eu lembro que quando estavamos com o povo da PR, antes de começar a gravar, nós dissemos que não mostrariamos nossos rostos e todo mundo ficou tipo “Como assim? Isso não é possível.” E a mesma coisa com os vídeos. Quando conhecemos SPike Jonze ou Michel Gondry ou algum dos outros diretores da época, eu acho que eles começaram a mostrar sua criatividade e fazerem vídeos super legais na época. Mas eles não tiveram a oportunidade de ter um músico que dissesse “Nós não precisamos estar no vídeo… apenas faça uma de suas visões ou um curto sonho de total lberdade” o que é totalmente aceitável, agora. O que acontece em qualquer lugar, agora.

WW: Você por acaso sente falta de depois de todo esse tempo, de ser capaz de “sair” da identidade Daft Punk e ser você mesmo?

TB: Não. Nós somos nós mesmos o tempo todo. Se você pegar o show que nós fizemos com dois robôs na pirâmide de luzes com dezenas de milhares de pessoas dançando ao redor e sentindo como se estivessemos em “Contatos de Terceiro Grau…” teria sito, pra mim, a coisa menos interessante se fossem dois caras numa pirâmide como aquela, onde você tivesse algum tipo de culto de personalidade. Esses personagens robôs, são como O Mágico de Oz, é o pequeno cara atrás da cortina, digo, se vc pegar o KISS, por exemplo, quando eles tiram as máscaras – mesmo em um certo nível, em alguns filmes de super-heróis, onde o super-herói revela sua identidade – perde-se um pouco da magia.

WW: Falando da performance, como você acha que o Daft Punk fez as pessoas reconsiderarem a diferença entre o que é performance ao vivo e o que é “música eletrônica” – o quê é humando, o quê é máquina?

TB:
Nossa relação com a técnologia é bastante ambivalente no fato de que é uma relação muito forte de amor/ódio. Desde a social network, para seus mp3, para seus celulares, e seus computadores – tudo isso é maravilhoso e completamente assustador ao mesmo tempo. Mesmo 15 anos atrás, quando nós estavamos com nosso estúdio no stage, e todas essas máquinas de bateria e todos esses sintetizadores, eu acho que nós já nos perguntavamos a relevância da música ao vivo que nós estavamos tocando ao ativar e acionar esses dispositivos – quando nos sentiamos mais operadores de um sistema, sabe? Quando é a máquina que toca. É, talvez, transformando tudo o que pareça uma reprodução muito mecânica em uma conexão emocional. Ou conexão física. Isso talvez nos coloque no papel de um artista. É interessante ver o quanto a emoção consegue tirar de uma máquina, nesse sentido.

WW: Em um livro do Greg Milner, que é a história da música gravada, ele descreve quando Thomas Edison estava dando esses testes de tons para que pessoas pudessem ver a qualidade de um fonógrafo. As pessoas simplesmente iam e ouviam uma gravação. Um jornal escreveu sobre o quão estranho era ficar sentado e aplaudir à uma máquina. Eu queria te perguntar se isso ainda é um conceito estranho. O quanto de máquina e tecnologia é o coletivo “Daft Punk”? É estranho aplaudir à tecnologia?

TB: Essa é uma questão muito vasta. Eu acho que a tecnologia é provavelmente um membro fundador do Daft Punk. Eu não acho que conseguiriamos ter feito qualquer coisa sem tecnologia. É, de fato “arte assistida (de ter assistência) pelo computador”.

WW: Você acha que a música foi uma das primeiras grandes formas de arte que teve seu início graças à tecnologia?

TB: Eu acho que nós apenas pegamos a oportunidade de achar uma área onde era possível criar e fazer todas as coisas por si próprio. Não podia ser teatro, não podia ser vídeo, na época; era possivelmente música.

WW: Então vocxê está dizendo que seguiram adiante no projeto Daft Punk musicalmente porque era o mais acessível?

TB: Porque isso tava no processo disponível, poder fazer tudo sozinho, completamente sem constrangimento. O problema do momento com a tecnologia é que… Eu vi um pendrive de 64gb. E o que isso significa, agora, com a popularidade desses produtos, a acessibilidade de memória, que não há mais limites para a tecnologia. E todo o século 20 foi realmente pragueado com as limitações da tecnologia. Eu acho que é uma boa coisa trabalhar com limitação, criativamente. Te poe numa lona estrutural, porque então sua imaginação tá tentando romper aquele limite. Eu acho que qualquer tipo de comportamento humanto tem que ser posto em oposição à algum tipo de frustração. É a mesma coisa que pensar que o homem mais rico do mundo é depressivo – porque ele pode fazer QUALQUER coisa, então ele não sabe o que fazer.

WW: Então isso é no caso uma coisa recompensadora; poder não poder usar zilhões de guitarras ao mesmo tempo.

TB: Digo, agora podemos.

WW: E isso atrapalha o processo criativo porque você não tem obstáculos a superar.

TB: Não há obstaculos. Mas eu acho que nós temos que aprender a nos controlas – colocarmos limites. Para os Beatles, se eles estivessem gravando em quatro faixas e oito faixas (não sei se existe um termo BR pra isso:/ by guiga), você teria que ser muito criativo com o como você grava as coisas, e isso o levaria a experimentar as coisas, achar soluções em torno do problema, é todo um processo criativo.

WW: Onde está a linha entre o que nós consideramos arte refinada e o que seria apenas “entretenimento”? Vocês trabalharam com o Kanye West, antes, vocês cooperaram com ele; ele é obviamente um interacionista. Para esse último álbum, ele fez um promo com a Vanessa Beecroft. Amanhã ela vai fazer um vídeo em Long Island City em que o Kanye o dirige. Moral da história, você acha que essas linhas entre ‘o que é arte refinada’, ‘o que é entretenimento’, ‘o que é música’ estão desaparecendo? Como vocês estão envolvidos nessa história?

TB: Eu acho que isso volta lá pra Andy Warhol e Pop Art, qndo era provavelmente um modo de fazê-lo – meio que ser um pouco subversivo sobre a platéia artística e a platéia “attendant”, e tentando mexer com os códigos deles mesmos – desde o Underground Velvet até os filmes de Paul Morrissey, que por acaso Warhol estava de “trademarketing”. Todos os filmes dirigidos por Paul Morrissey, que eram tipo “Andy Warhol films”, mas que ele (Warhol) não estava dirigindo. Levando em conta vários aspectos mercantilistas, transformando marketing em arte – ou o oposto – tendem a diluir ainda mais as linhas entre “a nobre” arte e “os baixos” consumidores e a reprodução industrial.

WW: Você acha que desde quando essa linha já não existe mais tanto?

TB: Se você pegar o George Lucas, por exemplo. Do mesmo modo que Andy Warhol, tudo foi desenhado no seu próprio universo (do lucas) – avanços tecnologicos e progressos em efeitos especiais através de um labirinto de merchandinsing que vai desde brinquedos e coisas assim – por um lado pessoas podem criticar dizendo que é uma empresa totalmente captalista. Mas por outro lado, você pode olhar como o processo de um artista ao começar como a imaginação de uma passoa e tornando-se todo um processo criativo global que é obviamente entrelaçado com a sociedade consumidora.

WW: É interessante como você fica mencionando Warhol porque eu imagino que a corolário moderno à Warhol é o Murakami, um pouco. E eu imagino que ambos, ao que trabalham nessas “fábricas de fazer arte”, quase como que tinham outras pessoas por dentro deles fazendo a arte em seu lugar, às vezes; eles meio que fiscalizavam tudo.

TB: Você precisa reparar, sério, o Leonardo da Vinci – volta muito atrás, mesmo.

WW: O que eu ia te perguntar era: Do mesmo modo, musicalmente, como Daft Punk, você se vê em uma época em que vocês são os chefes dessa grande cooperativa, e que ajam pessoas lá, fazendo DAFT PUNK MUSIC ? ;DDD

TB: Claro, eu acho que o que nós fazemos é muito mais boutique, de certo modo.

WW: Agora que a cooperativa por trás de Daft Punk acontece, em quantas pessoas vocês são ?

TB: Na frente artística, até agora somos basicamente nós dois mais o nosso parceiro Cedric Hervet, que tem trabalhado conosco no lado visual da coisa, durante um bom tempo, já. E o nosso parceiro Paul Han, em Los Angeles, que tem produzido as turnês conosco… e depois são diferentes habilidades dependendo do projeto. É um trabalho em equipe. É tipo talvez como no cinema; a definição de filme “auteur” (wtf) é que você pode ter a visão de uma pessoa que pode ser transcrita, através de pessoas trabalhando nela, e ainda assim, mante-la pura. O que é, provavelmente, a razão de cinema ser tão mágico. Porque é realmente o resultado da combinação de tantas pessoas, com trabalho em equipe, onde você tem, às vezes na arte. Se você pegar o trabalho de MAtthey Barney, Eu não sei quantas pessoas trabalham nas paradas dele; se é só ele mesmo ou se são 30 pessoas, mas no final do dia, você obtém a sensação de uma visão e de uma declaração pessoal.

WW: Quando vocês estão atuando ao vivo, é como em uma peça de teatro, ou mesmo em um “filme ao vivo”? Vocês conceitualizam nesse sentido, que vocês estão criando uma experiência, e não apenas um concerto ?

TB: Com os shows ao vivo, a idéia é definitivalmente um mundo onde há uma overdose de imagens e sons, um extravasamento disso tudo – onde parece que há praticamente esse coletivo entorpecido, como um entorpecimento físico ou emocional. Onde a platéia tem experienciado tudo, eles têm visto os melhores video games, têm tido suas expectativas, de um estimulante standpoint, tornando-se maiores e maiores.

WW: Devido ao que eles já viram antes…

TB: É. A mesma coisa – as primeiras pessoas que viram um filme, com o trem vindo, elas sairam correndo, sabe? (eu já vi isso, foi engraçado by guiga).
É quase como um círculo vicioso de estímulos, o limiar de estímulo que continua tornando-se maior e maior, do mesmo modo que se você tornar-se alcoolotra, quanto mais você bebe, mais demora pra você ficar bêbado. De um fator puramente interacionista, às vezes parece que há uma escala de expectativas e palpitações. Isso acaba sendo um desfio muito interessante para os interacionistas ou artistas.

WW: E isso te deixa nervoso? VocÊ provavelmente compete contra si mesmo, em turnê.

TB: Eu não acho que nós vamos fazer turnê tão cedo, pelo menos enquanto não decidirmos novos modos de experiências. (buáá)

WW: Contanto que a estética no geral, o que inclui as luzes, a pirâmide, as fantasias (COMO ASSIM “FANTASIAS”?? by guiga)… Você mencionou, anteriormente, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, então eu imagino que você esteja extraindo isso de cultura popular, e alguns dos quais talvez seriam considerados cultura underground. Entre esses, há alguma referência, em particular? Enquanto desenvolviam Daft Punk, ouve algum marco que você manteve consigo?

TB: Nós não gostamos do conceito de “fusão” em arte; mas nós temos a consciência de que não inventamos nada artisticamente, a mais do que sintetizar e combinar influências que nunca estiveram juntas. Então, é, definitivamente, combinando influências, em que alguns foram mais “nobres” e outras mais “baixas”. Massa cultural. “Bom” gosto e “mal” gosto, e coisas do gênero.

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Redatora do blog e twitter da Daft Punk Brasil e uma das administradoras da fanpage da Daft Punk Brasil.

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